Uma página

7 de dez de 2012

Gosto de reparar nas pessoas a minha volta, acredito que posso tirar um pouquinho da essência de cada um e meio que colocar num frasquinho pra ficar sempre olhando, como inspiração.


Um calor absurdo, um ônibus cheio, eu e meu livro.

O único que parecia não se importar era o trocador, um senhor de cabelos já brancos que continuava a dar “boa tarde” e desejar um “bom fim de semana” a cada passageiro mal humorado que subia no transporte. Como alguém daquela idade podia estar tão feliz o tempo inteiro, mesmo com a tremenda falta de educação e paciência de todos a sua volta? Ele sem dúvida era um exemplo.

Desejei pegar aquele ônibus mais vezes. Mesmo que tivesse que andar um pouco até chegar a minha casa, uma dose daquele bom humor do velhinho com certeza deixaria meu dia melhor. A moça emburrada cheia de sacolas ao meu lado levantou-se pra finalmente descer do ônibus, será que a alegria do trocador não contagiou a ela? Ou teria sido insuficiente para sua amargura? Vai saber.

E como sempre que alguém deixa vago um lugar em um ônibus cheio, todos os passageiros próximos que ainda estavam de pé se entreolharam, um casal conversava animadamente um pouco atrás do acento livre e pareciam não se importar em estar em pé, desde que pudessem continuar conversando. O momento “quem será que vai pegar o lugar” passou e um rapaz venceu. Devia ter vinte e poucos anos e provavelmente voltava do trabalho, precisava fazer a barba, embora sua aparência não fosse de desleixo.

Voltei para meu livro, às vezes esquecia que ele estava ali no meu colo, esperando ser lido. Foi quando terminei aquela página e já ia virar a folha que percebi o olhar do rapaz ao meu lado sobre meu livro. E por segundos não tive reação.

Será que ele estava realmente lendo ou só pensando e encarando qualquer lugar aleatório? Será que se eu perguntasse se podia passar ele ficaria envergonhado por ser descoberto? Um meio sorriso escapuliu no meu rosto ao imaginar a cena.

Virei à página quase com medo de sua reação. Ele olhou para os lados como se fosse jogado na realidade, ou aquilo era só coisa da minha mente e ele apenas pensou ter passado do ponto. O rapaz fez sinal e levantou-se pra descer do ônibus. Despediu-se de mim, uma simples desconhecida, com um sorriso e um “tchau” sussurrado.

Entendi como um “obrigado”, sorri de volta.

Ali eu soube que tinha virado a página na hora certa.

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