Conte até 9

26 de mar de 2014
Confesso que demorei um pouco para percebê-lo, costumo andar muito distraída – gosto de culpar os fones de ouvido. Quando dei por mim já nos conhecíamos há muito tempo. E ele já fazia parte de um pedacinho da minha vida.

Ele passava por mim todos os dias enquanto eu caminhava para a faculdade, sempre no mesmo horário eu via seus olhos muito azuis, o cabelo bagunçado e fones exatamente iguais aos meus.

No inicio achei uma coincidência engraçada, mas depois tive vontade de pará-lo e fazer algumas perguntas:

Será que ele vinha do trabalho ou fazia faculdade? Estava indo pra casa dele? Será que morava com os pais ou eles eram separados? Que banda será que está cantando em seus ouvidos? Quantos anos tinha, 23 talvez? Qual seria sua cor favorita? Será que gosta de séries ou prefere assistir filmes? Que dia ele faz aniversário?

Claro que nunca perguntei.

Uma vez ele estava rindo com um amigo (uma das poucas vezes que o vi acompanhado), tive uma vontade louca de segui-los para ouvir a piada.

Em outro dia ele estava mexendo no celular, mudando a música provavelmente, e eu quase cutuquei seu braço pra dizer “ei, olha pra mim aqui!”.

Ah, teve também aquela vez na última semana, ele estava com os olhos vermelhos feito sangue, fazendo uma combinação assustadora com o azul que eu já estava acostumada. Foi quando mais tive vontade de pará-lo, mudar de direção e acompanhá-lo. Perguntar o porquê de seus olhos estarem assim se tinha fumado, se era algum tipo de alergia, ou se algo o fez chorar.

Meu medo é que a última alternativa fosse a certa. Tive vontade de abraçá-lo, mas como de costume segui nosso ritual: trocamos um olhar de quase 9 segundos e no décimo cada um voltava para o seu mundo.

Por 9 segundos ele fazia  parte da minha vida e eu da dele, por nove segundos ele já  era meu amigo e eu nem sabia seu nome.

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